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| Revista Lietrária Grotta, nº1, Agosto 2016 |
Grotta - 1 -No
poema “Foz do Douro” escreve “(...) sinto que não tenho uma cidade/ a que
pertença inteiro e possa/ dedicar-lhe palavras (...)”. Aonde pertence
verdadeiramente?
ND - Sinto que pertenço a duas terras, à Ilha de S. Miguel e à Foz do
Douro. Se nasci em Ponta Delgada e a minha família pelo lado paterno é de S.
Miguel, passei a infância e metade da adolescência na Foz do Douro, onde a
família de minha mãe morava. Aos quinze anos, fechada a casa de família, tomo o
mesmo comboio de «Manhã Submersa», estudo em Coimbra e Évora, faço o estágio do
meu curso em Mirandela, parto para guerra colonial da Guiné. Quando volto aos
vinte e cinco anos, não sabia de que terra era.
Grotta - 2 - No mesmo poema, escreve também: “(...) a ilha onde nasci/
não é minha senão no sangue/ de capitães distantes/ que meu pai garantia
correr-me nas veias (...)”. Os seus ascendentes pelo lado paterno são da Ilha
de S. Miguel, pelo menos desde a fundação de Vila Franca do Campo, no primeiro
quartel do século XVI. Como é que se relaciona com os Açores?
ND - De uma vez que fui a S. Miguel, senti uma coisa estranha e calorosa
sob os pés. Era a terra onde nasci, afinal tinha uma pátria, digamos assim. Sou
de Ponta Delgada. Também o era em casa de meus pais na Foz, onde S. Miguel era
preponderante com a sua cultura, da comida aos costumes. Mas não brincava na
Ilha, brincava na Foz do Douro, a Ilha estava longe, e nesse tempo ia-se em
navios da Insulana ou dos Carregadores Açorianos. Não devia ser barata a
viagem. O meu pai ia sozinho.
Grotta - 3 - Tem antepassados literários importantes. É neto de um poeta
e intelectual açoriano, Armando Côrtes-Rodrigues (o “avô poeta” que refere sem
nomear em “O Baralho de Tarot”). Tem memória de seu avô? Como é que se relaciona
com esse dado biográfico e familiar?
ND - Acima do mais, o meu avô Côrtes-Rodrigues era a figura tutelar que
pairava em nossa casa, na infância. Escrevia-lhe para a Ilha com desenhos que
ele achava muito expressivos, e a minha folha ia na correspondência que meu pai
trocava com o meu avô. Veio duas vezes ao continente e a minha casa. Tinha uns
olhos muito vivos e doces. Quando se zangava, porém, ficavam redondos de tão
abertos e eram temíveis. Nunca a literatura fez parte das nossas conversas e só
mais tarde, depois da sua morte, vi quanto tinha perdido, mas a família era
assim. Claro que, em tempo, não nos cansaríamos de trocar ideias sobre poesia e
literatura em geral. É uma pena irremediável que guardo.
Grotta - 4 - Em “Londres” como que encontra uma âncora: “(...) O sol é a
minha pátria, mas também o é a bruma (...)”. No seu cartão do cidadão coabitam
a luz e a sombra?
ND - Não há luz que não projecte sombra, o importante é que a luz evite
projectá-la, quero dizer, seja a luz que mande, quem diz luz, diz alegria, paz
e o controlo disciplinado da sombra. Na gestação da poesia, e no meu caso, o
controlo não é eficaz, mas é-o na vida.
Grotta - 5 - Numa nota final a “Dispersão – Poesia Reunida” diz que os
seus poemas de juventude desapareceram e que voltou mais tarde à poesia (“houve
um longo intervalo em que a poesia não me surgiu como imperativo de me situar
em mim no mundo”). Durante anos não precisou de escrever?
ND - Escrevi desde os dezassete anos até aos vinte e sete por
necessidade, tal como hoje, e foi por um romance falhado, e depois por não me
fazer falta escrever, que parei. Era então um período luminoso e a vida está
muito primeiro do que a poesia, embora a poesia faça parte dela e seja uma
óptima bússola, melhor e modernizando os meios, um óptimo GPS para nos
situarmos no mundo.
Grotta - 6 -Tem uma vocação de viajante, em especial para cidades
estrangeiras - Marraquexe, Madrid, Atenas e Londres (aliás, tem um livro
chamado “Londres”). É em “Londres” que escreve (...) a minha pátria é a
humanidade. Mesmo que dela descreia (...)”. É mesmo assim ou foi assim em
Londres?
ND - Era assim nesse tempo, uma ideia romântica. Hoje a humanidade nunca
poderia ser a minha pátria, sei demais acerca dela, mas também sei que há uma
minoria que vale a pena cultivar, os dignos, lúcidos e justos, e os que, não
sendo lúcidos a respeito do seu próprio destino e condição, são dignos, justos
e inocentes da sua falta de lucidez.
Grotta - 7 - “K3” é um livro sobre a experiência da guerra no qual não
cede à tentação de poetizar sobre o ambiente natural onde se moveu na Guiné
(“iria por um rio/sem hipótese alguma de lirismo”). Como conseguiu encontrar a
coragem para escrever sobre um tema tão terrível? Fê-lo para redimir o facto
de, como escreve, não haver “(...) poemas que celebrem/ soldados sob fogo nos
túneis escavados (...)”?
ND - Creio que não. Sempre senti necessidade de testemunhar esse tempo.
O romance falhado era dessa minha experiência que tratava. Dois anos depois de
voltar, nada da guerra estava digerido, era tudo muito próximo, além de que não
tinha a maturidade nem a experiência necessárias para escrever um romance. Na
verdade, não conheço nenhum poeta que tenha celebrado a guerra colonial, não
estávamos no século XVI, não estávamos no tempo da celebração das Descobertas,
estávamos nos seus antípodas, na queda do império, daí não poder escrever-se
poesia celebrativa, pelo contrário, a única possível e honesta era a
anti-épica.
Grotta - 8 - Encontra-se numa boa parte da sua poesia uma vocação
incisiva e cortante com alguns prosaísmos e referências a elementos quotidianos
(marcas de automóveis, nomes de estações de rádio, nomes de processadores de
texto) a contra-balançarem um tom abertamente lírico. É no contraste entre o
pequeno e o sublime que a literatura se pode encontrar com a natureza humana?
ND - Não me parece que esse contraste nos conduza à amplidão da natureza
humana, nem estou certo de que hoje exista o sublime de que se me afigura
falar, pelo menos não o encontro. A natureza humana no seu todo é a
matéria-prima da literatura, e tenho para mim serem outros os meios para melhor
a encontrar. A qualidade literária, a meu ver, é o principal e parece-me que
único, porque essa qualidade contém tudo o que forma as obras literárias, ou
seja, a natureza humana segundo o tema e a visão do autor. Crime e Castigo nada tem de sublime e toca o fundo da natureza
humana, de uma parte dela. A poesia mística de San Juan de la Cruz será sublime?
Poderá sê-lo sob o ponto de vista de uma leitura por alguém com profunda
religiosidade, mas objectivamente é uma manifestação (e um testemunho) da
natureza humana que a qualidade tratou de validar.
Grotta - 9 - Alguns dos seus poemas – mais curtos e com remates secos -
remetem para alguma poesia britânica. Revê-se nesse parentesco?
ND - Na minha primeira fase, até aos vinte e sete anos, escrevia poesia
surrealizante. Na segunda fase, a actual, pensei que a poesia devia ser
entendida, e, na retoma da escrita, poema pró-surrealista escrito foi só um e o
primeiro. Até o Monte Igueldo, em San Sebastian, pairava sobre a praia de La
Concha… Perdi o poema sem pena nenhuma. Quando muito, valeria, em exclusivo
para mim, como curiosidade, em exclusivo, porque nunca o daria para publicação.
Isto talvez ajude a compreender a concisão nos poemas de que fala. Foi ao mesmo
tempo uma reacção ao que eu escrevia e ao que ainda hoje maioritariamente se
escreve, uma poesia com dívidas ao Surrealismo.
Quanto à poesia de língua inglesa, penso que não. Julgo que devo a concisão a
Kaváfis (nem uma palavra a mais ou a menos), e o desejo de inteligibilidade, a
Jorge de Sena. Mas isto é muito redutor. Recebem-se influências de todos os
lados que nos agradem. Somos a soma do que lemos com o que vemos por nossos
olhos.
Grotta - 10 - Nota-se que tem um apego aos clássicos (Virgílio, Homero,
Dante, Shakespeare), mas não deixa de se relacionar, com maior ou menor
perplexidade, com a tecnologia. Tem um livro intitulado “Uma Paisagem na Web”.
Em “Londres” escreve: “(...) telemóveis discutem/ com telemóveis,/enquanto a
humanidade,/ que esse fervilhar digital conduz, /repousa tranquila e dorme/nas
salas da National Gallery/ou do British Museum (...)”. Como é que a sua raiz
clássica convive com o ordenamento digital?
ND - E Camões, acrescento agora. Porque são grandes e porque bem cedo
descobri os gregos clássicos. E convivem com o tempo actual, porque tudo o que
refere na pergunta faz parte da vida, não há contradição, há continuidade e o sentido
e percepção global que isso permite.
Grotta - 11 - “Do Tempo”, incluído no livro “Na Luz Inclinada”, abre com
o verso “Tudo se gasta”. É um poema sobre a deterioração de “estradas”, do
“mar”, de “Deus” e sobre a solidão essencial à condição humana: “(...) seres
curvados,/genéticos, sozinhos, caminhamos”. Tem uma concepção desalentada da
existência ou acredita em pequenas possibilidades?
ND - O tempo não vai de feição para ditirambos, reflectimos a sociedade
e o seu estado de espírito, testemunhamos o nosso tempo. Mas acredito, sim, nas
pequenas possibilidades, que não poucas vezes são grandes para nós, sendo de
facto e objectivamente pequenas.
Grotta - 12 - Nesse desgaste inclui-se o amor, muito presente na sua
poesia. Pode dizer-se que o desgaste amoroso também é um dos seus temas?
ND - Conheço pessoas que se amam toda a vida, e o amor, numa etapa tão
longa, tem as suas dificuldades, penso eu.
Grotta - 13 - Em “O Tempo Foge” o homem é apresentado como estando como
que encurralado na sua relação com o divino: “(...) Quem vê Deus nas estrelas/
está doente./ Quem não o vê, vive sozinho/ no cada vez mais rápido/ fugir dos
dias”. Estamos condenados a esses dois caminhos sem saída?
ND - Aqueles que representam o primeiro verso transcrito têm sorte e um
caminho com saída, embora o segundo verso os qualifique. Os dos restantes
versos estão restritos ao seu caminho sem saída. Mas tanto estes como aqueles
vivem com o que pensam e, quantas vezes, em paz.
Grotta - 14 - Em “Acerca do Silêncio” afirma crer não em deuses, mas em
“árvores/como em deuses de faz de conta”. Encontrou na Natureza, constante nos
seus versos, um reduto onde se pode reconciliar com a existência?
ND - É antes um reduto onde pode encontrar-se bem mais a paz do que a
reconciliação. Digamos que é um mundo limpo em que entramos e saímos. A
consciência tem o seu preço e não permite vivermos absortos.
Grotta - 15 - Há também um sentimento de absurdo – de viver, de escrever
- em muito dos seus poemas: “(...) O exílio só não é um estado ilógico/ porque
o resto da vida o seria também,/e não temos coragem de dizer/que o comboio e o
teclado/ não conduzem a parte alguma (...)”. E no poema “Incomunicáveis” tira à
literatura uma ambição salvífica que muitas vezes julga ter: “(...) as palavras
acendem,/ em lugar de esperança, curto circuitos breves e fatais”. As palavras
podem mesmo pouco?
ND - As palavras podem muito, são o que nos forma a lucidez, em conjunto
com a nossa experiência, bem como permitem a expressão e a comunicação em
presença ou por leitura. No poema Incomunicáveis as palavras referem-se à
solidão de não poder falar-se com pessoas desconhecidas na rua (endoideceu,
diriam).
Grotta - 16 - A sua poesia tem um humor muito próprio, atravessado de
melancolia. Em versos breves consegue abrir um efeito cómico claro. Qual o
papel do humor no seu trabalho?
ND - Nunca pretendi fazer humor, mas isso sou eu a dizê-lo. O que está
escrito, escrito fica e pode provar o contrário do que afirmo. Talvez queira
referir-se ao humor inteligente que é a ironia. A ironia em poemas é um jogo
que me agrada e em que por vezes entro.
Grotta - 17 - O penúltimo poema de “Luz Inclinada” tem os seguintes
versos: “Procura-se a alegria com urgência;/ que defronte a memória no
silêncio”. Escreve para procurar as “vozes de crianças” e algo que, não se
realizando, ao menos “finja ser possível”?
São os tais sonhos, o finja ser possível. Quanto a escrever-se com uma finalidade,
escreve-se o que nos ocorre e segundo aspectos que nos atraiam. A poesia
temática para livro já não dispõe dessa liberdade, escreve-se para um assunto,
escreve-se sobre ele até o esgotarmos no pensamento, ainda que possamos não nos
afastar dos vectores que definem as nossas escolhas poéticas.
Grotta - 18 - Em “Claridade”, poema de “Elogias de Cronos”, escreve
sobre a brevidade da vida – aquela que tendemos todos os dias a esquecer.
Resta-nos tentar habitar o “paraíso a termo”?
Os paraísos a termo são refúgios breves, lugares para onde podemos fugir a
espaços, mas não habitar neles, são recusas da realidade, o que é uma variante
do que se respondeu na pergunta 14.
Nuno Santos, Revista Grotta n.º 1, Agosto de 2016