K3 - Jornal de Letras Abril, 2011

Crítica literária de JMS, Revista Ler, Abril 2011

K3 - Jornal de Letras, Julho de 2011



 Crítica de António Carlos Cortês, Jornal de Letras, Julho-Agosto de 2011

ELEGIAS DE CRONOS

Crónica literária de Fernando Guimarães, Jornal de Letras nº 181, 2012

DISPERSÃO - POESIA REUNIDA

 

 
 Crítica de F. Pires Lopes, revista Brotéria, Dezembro de 2010

Londres

 

Crónica literária de JMS, Revista Ler, Abril de 2010



UMA PAISAGEM NA WEB

 

  




Crónica de António Carlos Cortês, Jornal de Letras

PEDRO E INÊS

 

 Crónica de Fernando Guimarães, Jornal de Letras, Março de 2012.

ENTREVISTA A NUNO DEMPSTER

 

Revista Lietrária Grotta, nº1, Agosto 2016

Grotta - 1 -No poema “Foz do Douro” escreve “(...) sinto que não tenho uma cidade/ a que pertença inteiro e possa/ dedicar-lhe palavras (...)”. Aonde pertence verdadeiramente?

ND - Sinto que pertenço a duas terras, à Ilha de S. Miguel e à Foz do Douro. Se nasci em Ponta Delgada e a minha família pelo lado paterno é de S. Miguel, passei a infância e metade da adolescência na Foz do Douro, onde a família de minha mãe morava. Aos quinze anos, fechada a casa de família, tomo o mesmo comboio de «Manhã Submersa», estudo em Coimbra e Évora, faço o estágio do meu curso em Mirandela, parto para guerra colonial da Guiné. Quando volto aos vinte e cinco anos, não sabia de que terra era.

Grotta - 2 - No mesmo poema, escreve também: “(...) a ilha onde nasci/ não é minha senão no sangue/ de capitães distantes/ que meu pai garantia correr-me nas veias (...)”. Os seus ascendentes pelo lado paterno são da Ilha de S. Miguel, pelo menos desde a fundação de Vila Franca do Campo, no primeiro quartel do século XVI. Como é que se relaciona com os Açores?

ND - De uma vez que fui a S. Miguel, senti uma coisa estranha e calorosa sob os pés. Era a terra onde nasci, afinal tinha uma pátria, digamos assim. Sou de Ponta Delgada. Também o era em casa de meus pais na Foz, onde S. Miguel era preponderante com a sua cultura, da comida aos costumes. Mas não brincava na Ilha, brincava na Foz do Douro, a Ilha estava longe, e nesse tempo ia-se em navios da Insulana ou dos Carregadores Açorianos. Não devia ser barata a viagem. O meu pai ia sozinho.

Grotta - 3 - Tem antepassados literários importantes. É neto de um poeta e intelectual açoriano, Armando Côrtes-Rodrigues (o “avô poeta” que refere sem nomear em “O Baralho de Tarot”). Tem memória de seu avô? Como é que se relaciona com esse dado biográfico e familiar?

ND - Acima do mais, o meu avô Côrtes-Rodrigues era a figura tutelar que pairava em nossa casa, na infância. Escrevia-lhe para a Ilha com desenhos que ele achava muito expressivos, e a minha folha ia na correspondência que meu pai trocava com o meu avô. Veio duas vezes ao continente e a minha casa. Tinha uns olhos muito vivos e doces. Quando se zangava, porém, ficavam redondos de tão abertos e eram temíveis. Nunca a literatura fez parte das nossas conversas e só mais tarde, depois da sua morte, vi quanto tinha perdido, mas a família era assim. Claro que, em tempo, não nos cansaríamos de trocar ideias sobre poesia e literatura em geral. É uma pena irremediável que guardo.

Grotta - 4 - Em “Londres” como que encontra uma âncora: “(...) O sol é a minha pátria, mas também o é a bruma (...)”. No seu cartão do cidadão coabitam a luz e a sombra?


ND - Não há luz que não projecte sombra, o importante é que a luz evite projectá-la, quero dizer, seja a luz que mande, quem diz luz, diz alegria, paz e o controlo disciplinado da sombra. Na gestação da poesia, e no meu caso, o controlo não é eficaz, mas é-o na vida.

Grotta - 5 - Numa nota final a “Dispersão – Poesia Reunida” diz que os seus poemas de juventude desapareceram e que voltou mais tarde à poesia (“houve um longo intervalo em que a poesia não me surgiu como imperativo de me situar em mim no mundo”). Durante anos não precisou de escrever?

ND - Escrevi desde os dezassete anos até aos vinte e sete por necessidade, tal como hoje, e foi por um romance falhado, e depois por não me fazer falta escrever, que parei. Era então um período luminoso e a vida está muito primeiro do que a poesia, embora a poesia faça parte dela e seja uma óptima bússola, melhor e modernizando os meios, um óptimo GPS para nos situarmos no mundo.

Grotta - 6 -Tem uma vocação de viajante, em especial para cidades estrangeiras - Marraquexe, Madrid, Atenas e Londres (aliás, tem um livro chamado “Londres”). É em “Londres” que escreve (...) a minha pátria é a humanidade. Mesmo que dela descreia (...)”. É mesmo assim ou foi assim em Londres?

ND - Era assim nesse tempo, uma ideia romântica. Hoje a humanidade nunca poderia ser a minha pátria, sei demais acerca dela, mas também sei que há uma minoria que vale a pena cultivar, os dignos, lúcidos e justos, e os que, não sendo lúcidos a respeito do seu próprio destino e condição, são dignos, justos e inocentes da sua falta de lucidez.

Grotta - 7 - “K3” é um livro sobre a experiência da guerra no qual não cede à tentação de poetizar sobre o ambiente natural onde se moveu na Guiné (“iria por um rio/sem hipótese alguma de lirismo”). Como conseguiu encontrar a coragem para escrever sobre um tema tão terrível? Fê-lo para redimir o facto de, como escreve, não haver “(...) poemas que celebrem/ soldados sob fogo nos túneis escavados (...)”?

ND - Creio que não. Sempre senti necessidade de testemunhar esse tempo. O romance falhado era dessa minha experiência que tratava. Dois anos depois de voltar, nada da guerra estava digerido, era tudo muito próximo, além de que não tinha a maturidade nem a experiência necessárias para escrever um romance. Na verdade, não conheço nenhum poeta que tenha celebrado a guerra colonial, não estávamos no século XVI, não estávamos no tempo da celebração das Descobertas, estávamos nos seus antípodas, na queda do império, daí não poder escrever-se poesia celebrativa, pelo contrário, a única possível e honesta era a anti-épica.

Grotta - 8 - Encontra-se numa boa parte da sua poesia uma vocação incisiva e cortante com alguns prosaísmos e referências a elementos quotidianos (marcas de automóveis, nomes de estações de rádio, nomes de processadores de texto) a contra-balançarem um tom abertamente lírico. É no contraste entre o pequeno e o sublime que a literatura se pode encontrar com a natureza humana?

ND - Não me parece que esse contraste nos conduza à amplidão da natureza humana, nem estou certo de que hoje exista o sublime de que se me afigura falar, pelo menos não o encontro. A natureza humana no seu todo é a matéria-prima da literatura, e tenho para mim serem outros os meios para melhor a encontrar. A qualidade literária, a meu ver, é o principal e parece-me que único, porque essa qualidade contém tudo o que forma as obras literárias, ou seja, a natureza humana segundo o tema e a visão do autor. Crime e Castigo nada tem de sublime e toca o fundo da natureza humana, de uma parte dela. A poesia mística de San Juan de la Cruz será sublime? Poderá sê-lo sob o ponto de vista de uma leitura por alguém com profunda religiosidade, mas objectivamente é uma manifestação (e um testemunho) da natureza humana que a qualidade tratou de validar.

Grotta - 9 - Alguns dos seus poemas – mais curtos e com remates secos - remetem para alguma poesia britânica. Revê-se nesse parentesco?

ND - Na minha primeira fase, até aos vinte e sete anos, escrevia poesia surrealizante. Na segunda fase, a actual, pensei que a poesia devia ser entendida, e, na retoma da escrita, poema pró-surrealista escrito foi só um e o primeiro. Até o Monte Igueldo, em San Sebastian, pairava sobre a praia de La Concha… Perdi o poema sem pena nenhuma. Quando muito, valeria, em exclusivo para mim, como curiosidade, em exclusivo, porque nunca o daria para publicação.
Isto talvez ajude a compreender a concisão nos poemas de que fala. Foi ao mesmo tempo uma reacção ao que eu escrevia e ao que ainda hoje maioritariamente se escreve, uma poesia com dívidas ao Surrealismo.
Quanto à poesia de língua inglesa, penso que não. Julgo que devo a concisão a Kaváfis (nem uma palavra a mais ou a menos), e o desejo de inteligibilidade, a Jorge de Sena. Mas isto é muito redutor. Recebem-se influências de todos os lados que nos agradem. Somos a soma do que lemos com o que vemos por nossos olhos.

Grotta - 10 - Nota-se que tem um apego aos clássicos (Virgílio, Homero, Dante, Shakespeare), mas não deixa de se relacionar, com maior ou menor perplexidade, com a tecnologia. Tem um livro intitulado “Uma Paisagem na Web”. Em “Londres” escreve: “(...) telemóveis discutem/ com telemóveis,/enquanto a humanidade,/ que esse fervilhar digital conduz, /repousa tranquila e dorme/nas salas da National Gallery/ou do British Museum (...)”. Como é que a sua raiz clássica convive com o ordenamento digital?

ND - E Camões, acrescento agora. Porque são grandes e porque bem cedo descobri os gregos clássicos. E convivem com o tempo actual, porque tudo o que refere na pergunta faz parte da vida, não há contradição, há continuidade e o sentido e percepção global que isso permite.

Grotta - 11 - “Do Tempo”, incluído no livro “Na Luz Inclinada”, abre com o verso “Tudo se gasta”. É um poema sobre a deterioração de “estradas”, do “mar”, de “Deus” e sobre a solidão essencial à condição humana: “(...) seres curvados,/genéticos, sozinhos, caminhamos”. Tem uma concepção desalentada da existência ou acredita em pequenas possibilidades?

ND - O tempo não vai de feição para ditirambos, reflectimos a sociedade e o seu estado de espírito, testemunhamos o nosso tempo. Mas acredito, sim, nas pequenas possibilidades, que não poucas vezes são grandes para nós, sendo de facto e objectivamente pequenas.

Grotta - 12 - Nesse desgaste inclui-se o amor, muito presente na sua poesia. Pode dizer-se que o desgaste amoroso também é um dos seus temas?

ND - Conheço pessoas que se amam toda a vida, e o amor, numa etapa tão longa, tem as suas dificuldades, penso eu.

Grotta - 13 - Em “O Tempo Foge” o homem é apresentado como estando como que encurralado na sua relação com o divino: “(...) Quem vê Deus nas estrelas/ está doente./ Quem não o vê, vive sozinho/ no cada vez mais rápido/ fugir dos dias”. Estamos condenados a esses dois caminhos sem saída?

ND - Aqueles que representam o primeiro verso transcrito têm sorte e um caminho com saída, embora o segundo verso os qualifique. Os dos restantes versos estão restritos ao seu caminho sem saída. Mas tanto estes como aqueles vivem com o que pensam e, quantas vezes, em paz.

Grotta - 14 - Em “Acerca do Silêncio” afirma crer não em deuses, mas em “árvores/como em deuses de faz de conta”. Encontrou na Natureza, constante nos seus versos, um reduto onde se pode reconciliar com a existência?

ND - É antes um reduto onde pode encontrar-se bem mais a paz do que a reconciliação. Digamos que é um mundo limpo em que entramos e saímos. A consciência tem o seu preço e não permite vivermos absortos.

Grotta - 15 - Há também um sentimento de absurdo – de viver, de escrever - em muito dos seus poemas: “(...) O exílio só não é um estado ilógico/ porque o resto da vida o seria também,/e não temos coragem de dizer/que o comboio e o teclado/ não conduzem a parte alguma (...)”. E no poema “Incomunicáveis” tira à literatura uma ambição salvífica que muitas vezes julga ter: “(...) as palavras acendem,/ em lugar de esperança, curto circuitos breves e fatais”. As palavras podem mesmo pouco?

ND - As palavras podem muito, são o que nos forma a lucidez, em conjunto com a nossa experiência, bem como permitem a expressão e a comunicação em presença ou por leitura. No poema Incomunicáveis as palavras referem-se à solidão de não poder falar-se com pessoas desconhecidas na rua (endoideceu, diriam).

Grotta - 16 - A sua poesia tem um humor muito próprio, atravessado de melancolia. Em versos breves consegue abrir um efeito cómico claro. Qual o papel do humor no seu trabalho?

ND - Nunca pretendi fazer humor, mas isso sou eu a dizê-lo. O que está escrito, escrito fica e pode provar o contrário do que afirmo. Talvez queira referir-se ao humor inteligente que é a ironia. A ironia em poemas é um jogo que me agrada e em que por vezes entro.

Grotta - 17 - O penúltimo poema de “Luz Inclinada” tem os seguintes versos: “Procura-se a alegria com urgência;/ que defronte a memória no silêncio”. Escreve para procurar as “vozes de crianças” e algo que, não se realizando, ao menos “finja ser possível”?

São os tais sonhos, o finja ser possível. Quanto a escrever-se com uma finalidade, escreve-se o que nos ocorre e segundo aspectos que nos atraiam. A poesia temática para livro já não dispõe dessa liberdade, escreve-se para um assunto, escreve-se sobre ele até o esgotarmos no pensamento, ainda que possamos não nos afastar dos vectores que definem as nossas escolhas poéticas.

Grotta - 18 - Em “Claridade”, poema de “Elogias de Cronos”, escreve sobre a brevidade da vida – aquela que tendemos todos os dias a esquecer. Resta-nos tentar habitar o “paraíso a termo”?

Os paraísos a termo são refúgios breves, lugares para onde podemos fugir a espaços, mas não habitar neles, são recusas da realidade, o que é uma variante do que se respondeu na pergunta 14.

Nuno Santos, Revista Grotta n.º 1, Agosto de 2016